Doki-Doki! 2025
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Boa tarde, ouvintes do melhor clubinho de literatura do Brasil!
Considero que o clubinho do ano de 2024 foi um sucesso. Consegui ler boa parte dos livros que queria ler, apesar de não todos. Não é fácil fazer uma lista de livros e seguir de fato, porque os interesses vão mudando ao longo do ano e você acaba que vai lendo o que der na telha. Se alguém tiver lido algum da lista que fiz ano passado eu aceito sugestões, podem me mandar email! Gosto de discutir leituras, e por isso comecei a série.
No grupo do Matrix, tem uma sala dedicada ao clubinho de literatura, mas está muito pouco povoada como tudo no Matrix. Por enquanto só temos três membros ativos, mas vamos aos poucos aumentando isso, espero. Talvez eu esteja escrevendo algo para ser publicado eventualmente, mas não sei se farei isso, nem onde vou terminar.
É difícil fazer episódios temáticos, mas eles meio que vieram naturalmente nas edições 3 e 4, então vou tentar seguir esse padrão, apesar de não poder prometer isso. Também quero fazer um episódio ainda para algumas das leituras que não comentei de 2024 que acho que valem a pena serem mencionadas, veremos.
Como disse, não posso prometer leituras específicas no ano de 2025, mas vou tentar seguir a lista de leituras do PewDiePie, que também fez um clube de literatura próprio. Elas estão definidas em um post do canal dele. Basicamente, será:
- Janeiro: Tao Te Ching (Lao Tzu);
- Fevereiro: In the Buddha's Words;
- Abril: Discursos (Epiteto);
- Maio: A República (Platão);
- Julho: Ética a Nicômaco (Aristóteles);
- Agosto: Ilíada (Homero), ou qualquer clássico;
- Outubro: Assim Falou Zaratustra (Friedrich Nietzsche);
- Novembro: Siddhartha (Herman Hesse).
Como o bom exemplo que Felix Kjellberg é, ele colocou literatura de todos os tipos, oriental ou ocidental, épica e filosófica. Ele ainda teve a sensibilidade de dar um livro por mês para quem se inscrevesse, exceto a cada três meses quando é para ler o que quiser, o que tiver interesse. Vai ser minha primeira vez lendo Nietzsche, com quem sempre tive muito preconceito, veremos como será!
Sei que não posso adiar mais a leitura de Os Demônios do Dostoiévski. Já estou o fazendo há muito tempo, e 2024 foi o primeiro ano desde 2019 que não leio nada do russo, então podem ter certeza que esse livro irei ler. De resto, essa vai ser a lista de livros que quero ler ou considerar ler em 2025:
- Diary of a Psychosis (Tom Woods);
- The Cocktail Party (T.S. Eliot);
- We Who Wrestle with God (Jordan Peterson);
- Dylan Goes Electric ou How the Beatles Destroyed Rock 'n' Roll (Elijah Wald);
- Down the Highway (Howard Sounes);
- Os Demônios (Dostô);
- Os EUA e a Nova Ordem Mundial (Olavo e Dugin);
- The End of Gender (Debra Soh);
- Invasão Vertical dos Bárbaros (Mário Ferreira dos Santos);
- The Last Outlaws (Thom Hatch);
- A Verdade Sufocada (Brilhante Ustra);
- A Portrait of the Artist as a Young Man (James Joyce);
- Stopping Time (Paul Bley);
- Killing Time (Paul Feyerabend);
- Psychiatry - The Science of Lies ou The Myth of Mental Illness (Thomas Szasz);
- Wit as a Political Weapon ou The Offensive Art (Leonard Freedman);
- Beefheart Through the Eyes of Magic (John "Drumbo" French);
- Ayn Rand and the World She Made (Anne Heller);
- O Estrangeiro e Notebooks (Albert Camus);
- The Blind Owl (Sadegh Hedeyat);
Observem que novamente são coisa de 20 livros, e somados aos 8 da lista do PewDiePie, vai dar mais do que os 25 que coloquei de meta para 2024. Vou manter o número de 25 para não ser ambicioso demais, e espero me manter motivado ao longo do ano.
De resto, gostaria de dizer que ainda que não sejam os episódios mais ouvidos do KrameriCast, o Doki-Doki! tem excelente feedback, agradeço todos que vieram comentar comigo sobre algo que foi dito no podcast e deixo sempre aberto para comentários diretamente comigo, afinal eu gosto de discutir os assuntos dos livros, e tento integrar à minha própria vida aquilo que eu consumo.
Nos vemos em 2025!
qua, 25 dez 2024 22:23:33 -0300
Doki-Doki! 4 - Odiamos Pessimismo!
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Seguindo o padrão de Doki-Dokis temáticos, esse episódio foi sobre pessimismo — que por aqui chamamos de COPE!
Dessa vez eu só comentei três livros, mas o motivo é justo. O terceiro deles, The Idea of Decline in Western History, é um dos melhores livros de não-ficção que já li. Existe uma certa ideia de que quanto mais você conhece, mais pessimista fica, mas essa visão foi, para mim, completamente refutada pela história dos últimos séculos, coisa que o autor, Arthur Herman, disseca lentamente ao longo de 500 páginas, fora as referências.
Quando se demonstra alguma forma de otimismo, ou quando se diminui as coisas ruins acontecendo, a resposta imediata é considerar a pessoa ingênua, mas definitivamente não é o caso comigo. Os dois primeiros livros falam exatamente da parte complicada da modernidade. Vida na Sarjeta, de Theodore Dalrymple (no original Life at the Bottom).
Sobre o sentimento de nostalgia por um período pré-industrial, algo que está na moda recentemente e que lembra o caso Luigi Mangione, eu comentei Capitalism and the Historians, de Hayek e outros, mostrando de onde surgiram as ideias anti-industriais e qual era a visão das pessoas da época sobre isso.
De certa forma, o episódio é sobre realismo, e não necessariamente contra pessimismo, mas particularmente, eu prefiro pessoas ingênuas a pessoas cínicas, ainda que otimismo ingênuo seja tão ruim quanto pessimismo pelo pessimismo. Cinismo corrói a alma, e não é porque eu sou contra cinismo que eu sou ingênuo, coisa que tentei provar com o livro do Dalrymple.
- Life at the Bottom (Theodore Dalrymple):
O livro é dividido em duas partes, uma com ensaios e colunas mais anedóticas de casos específicos, variando de padrões de comportamento dentre pacientes da classe social mais baixa até o efeito de arquitetura, imigração de pessoas de culturas muito diferentes, a relação de pessoas das classes baixas com religião e tantos outros. Dalrymple é claramente uma pessoa erudita, e suas teorias para explicar as suas próprias observações são bem elaboradas e frequentemente interessantes. Não acho que ele acerta sempre, algumas coisas envelheceram relativamente mal, mas até quando ele erra consegue ser interessante de alguma forma.
- Capitalism and the Historians (Friedrich Hayek e outros):
Esse provavelmente é o livro mais técnico dos três, entrando em detalhes em autores de história estudados na primeira metade do século XX e em como surgiu a visão distorcida de como era o mundo industrial em seu começo e como aconteceu a romantização da era pré-industrial. Como todos os autores são letrados em economia, conseguem explicar a influência de alguns fenômenos como regulamentação de moradias sobre a qualidade de vida e mostram que, no mínimo, as coisas não são tão simples como a resposta automática de "indústria piorou a qualidade de vida" sugere. O exemplo óbvio de subida de qualidade de vida é o fato de milhões de crianças não terem morrido na infância e terem chegado à vida adulta, permitindo um boom populacional, mas ainda vai muito mais além. Como Hayek diz em A Arrogância Fatal, "tradição é, em alguns aspectos, mais sábia que ou superior à razão humana".
- The Idea of Decline in Western History (Arthur Herman):
Essa obra-prima visita um conceito intelectual que todo mundo reconhece mas, até onde eu saiba, nunca foi descrito formalmente: a decadência. Herman escreve muito bem e traça as origens ainda no mundo antigo, mas foca principalmente nas influências modernas — da Revolução Francesa para cá. O melhor desse livro é que conseguimos ver que tanto a extrema esquerda quanto a extrema direita modernas têm raízes parecidas, ao ponto de serem influenciadas pelas mesmas figuras. Todo o pessimismo racial (que nos anos 30 podia ser por causa de judeus na Alemanha ou negros, italianos e eslavos nos EUA mas hoje é direcionado a brancos), todo o pessimismo ambientalista, e todo pessimismo social ou político bebe das mesmas ideologias pregando final de ciclo, ainda que estejamos nesse final de ciclo há coisa de três séculos. É um livro principalmente tratando de história das ideias, e por 90% de seu conteúdo não há opinião do autor, apenas para ela ser colocada na conclusão.
Obviamente, o livro que mais sugiro aqui é o de Herman, mas o de Dalrymple também é um bom contraponto para mantermos o pé na realidade ao mesmo tempo que pensamos na melhora futura. Já Capitalism and the Historians eu sugiro para pessoas mais voltadas ou ao estudo de história do pensamento econômico ou de história do século XIX, por ser algo mais específico.
Até a próxima, amigos.
qua, 11 dez 2024 21:01:17 -0300
Doki-Doki! 3 - Odiamos Educação!
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O terceiro episódio do Doki-Doki! foi completamente temático, do começo ao fim. Li alguns livros diferentes, mas decidi comentar daqueles que eram relacionados com educação, de alguma forma. O formato mudou, como prometido no último, e não gravei em uma só take, o que facilitou minha vida bastante, ainda que tenha tido o lado ruim de perdermos a música de fundo. Adicionei uns midis para transições de livros, talvez isso compense?
Os livros foram de autismo extremo, com o Caplan, para abstrações com o Illich e também com descrições históricas com Leonard. Minha ideia aqui foi tentar entender melhor o funcionamento real, afinal por aqui somos maquiavélicos, da educação, e o melhor lugar para começar me pareceu ser um livro de um economista falando de gastos e rendimentos — a abordagem mais pragmática.
Mas e as motivações ideológicas? Justamente por sermos maquiavélicos por aqui, entendemos que boa vontade não faz política, e na nossa oligarquia as coisas não funcionam propositalmente, mantendo o sistema educacional como uma ferramenta de demagogia. Para isso, os livros de Illich, Rothbard e Gatto.
Por fim, de onde surgiu a ideologia e a política envolvendo educação? Naturalmente, do século XIX, dos prussianos e dos progressistas americanos. Para isso, li algo mais próximo dos meus interesses e da nossa realidade — Illiberal Reformers de Thomas Leonard. O movimento progressista endeusou o projeto educacional, mas como eles surgiram e quais seus objetivos? Lendo o livro, apesar de ficar claro que não temos hoje os mesmos progressistas de 150 anos atrás, a ideologia deles ainda continua em seu âmago a mesma, querendo homogeneizar a população.
Aqui a lista de livros:
- The Case Against Education (Bryan Caplan):
Assim como o já comentado livro de Caplan The Myth of the Rational Voter, este é extremamente focado em "economês" e trata o problema da educação da maneira mais distante e impessoal o possível, ao mesmo tempo em que Caplan se coloca como uma pessoa diretamente influenciada pelo sistema educacional. Ele é um professor, e tem um incentivo muito grande para manter as coisas como estão, mas não é o que a ciência econômica mainstream indica que deve ser feito. Ele utiliza da teoria econômica de sinalização como principal ferramenta, e faz total sentido para pessoas honestas que pensam "eu não estou na escola/universidade para aprender, mas para conseguir meu diploma."
- Deschooling Society (Ivan Illich:)
Illich foi um padre católico associado aos movimentos sociais americanos dos anos 60 e 70 — ele era de esquerda. Naturalmente, faz uma crítica muito mais humanista ao sistema educacional e, como quase todos de esquerda, em vários aspectos não compreende o funcionamento real do mundo. Dito isso, é um livro muito bom com críticas genuinamente boas ao que o sistema educacional faz não só com as pessoas em nível individual mas também com culturas inteiras. O apelo do livro é diametralmente oposto ao de Caplan — não estamos falando em eficiência ou em quantidades, mas em valores e morais e no conforto da alma. Algumas de suas sugestões, como "redes de aprendizado", se tornaram tão práticas que no mundo de redes sociais elas parecem óbvias. É um livro sugerido pelo Pedro Sette-Câmara.
- Dumbing Us Down (John Taylor Gatto):
Esse livro já tinha me sido sugerido diversas vezes, e eu entendo perfeitamente por que. Gatto tem a experiẽncia de quem trabalhou diretamente com educação, mas ao mesmo tempo a honestidade de quem não quer vender a própria alma. Precisamente por ter trabalhado na máquina burocrática, as críticas que ele faz ao professor são devastadoras. Uma coisa em comum em todos os livros que falavam diretamente de educação e bastante frisada aqui é a ideia de que não se precisa de mais educação, e sim de menos. Esse livro mostra exatamente que o sistema educacional é planejado para ser danoso, e não hesita em listar os propósitos dele, por que professores e burocratas agem como agem em relação ao tema, e como de fato ele age nos alunos.
- Education: Free and Compulsory (Murray Rothbard):
Rothbard escreve de uma maneira extremamente autista e acadêmica, o que me incomoda em quase todos seus livros, mas esse aqui tem a vantagem de ser incrivelmente curto. Não é um grande livro em nenhum sentido, mas ainda desenha muito bem, a partir daquela perspectiva individualista libertária, o funcionamento da educação em nível individual, que é o que acontecia na América por toda sua tradição até a perversão das influências alemãs/prussianas vindas a partir dos acadêmicos. Ele fala de como a educação deixou de ser livre na Europa (em particular na Alemanha, na França e na Inglaterra) e faz a análise histórica convergir com sua análise de incentivos desses projetos, que querem fortalecer estados ao diminuir indivíduos.
- Illiberal Reformers (Thomas C. Leonard):
De longe o livro mais histórico desse episódio. Dividido em duas partes, Illiberal Reformers mostra como os especialistas/intelectuais conseguiram se tornar uma classe especial na sociedade americana e criar o movimento progressista, e também o que eles fizeram após chegar ao poder. O que move o movimento progressista é o entusiasmo com a ciência (na época, as teorias darwinistas) e a vontade de estabilizar a sociedade, evitar crises. Para isso, a ferramenta é homogeneização social, que no século XIX e começo do XX tinha significado biológico e darwinista. A principal ligação entre o progressismo antigo e o moderno não se dá nas opiniões sobre tópicos individuais, mas no objetivo maior de ordenar a sociedade e tratá-la como uma indústria ou como uma máquina. Apesar de inicialmente o objetivo do movimento progressista ser relativamente compreensível, a paranóia com crises e transformação de estabilidade no maior, senão único valor, a ser buscado se elevou a níveis absurdos contemporaneamente. E esse livro conta a história da origem disso tudo.
Talvez eu grave um outro sobre livros que não cabiam em episódios temáticos, ou eu simplesmente descarto essa ideia de episódios temáticos no futuro. Mas acredito que de qualquer forma, está melhor do que simplesmente não fazer.
Eu sugiro todos os livros desse episódio. O que menos gostei foi do Rothbard, mas mesmo ele tinha algo a ser retirado.
Até a próxima, amigos.
qua, 06 nov 2024 10:00:03 -0300
Doki-Doki 2 - Aristocracia É o Caminho
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Esse episódio foi ruim, não me sinto orgulhoso dele. Não que eu tenha lido livros ruins (bom, teve o do Dugin), mas o episódio em si foi muito difícil de gravar e eu fui extremamente burro. Três horas gravadas direto, sem pausa, me fazendo terminar com a garganta doendo de tanto falar.
De certa forma, boa parte dos livros ainda foram políticos, mas isso não foi regra absoluta. Gostei muito de ler alguns desses livros, mas senti falta de literatura, e decidi então para o próximo pegar uns livros de mitos arturianos. Comentarei no próximo episódio — que vai existir, ok?
Ainda assim, foram temas políticos relativamente distantes um do outro. Provavelmente não vale a pena ouvir o episódio, mas ainda assim caso alguém tenha interesse, aqui vai a lista. Novamente, episódio ao final:
- A Rebelião das Massas (José Ortega y Gasset):
Esse foi sem dúvidas o livro mais interessante da lista, Ortega y Gasset conseguiu enxergar antes da Segunda Guerra Mundial basicamente todos os problemas que teríamos dali para a frente. Ele é um liberal existencialista, mas não um liberal que vem do aspecto econômico ou coisa do tipo, além de passar longe de ser ingênuo. Esse livro é uma descrição e crítica do maior problema da democracia — a massa despersonalizada — e um apelo para a aristocracia cultural e talvez até mesmo política. Foi curioso ler esse livro depois de The Machiavellians, que foi comentado no último Doki-Doki porque apesar de ambos verem esse elitismo como algo bom, a abordagem não podia ser mais diferente;
- The Politics of Myth (Robert Ellwood):
O livro trata de três autores associados ao estudo de religiões e mitos — Joseph Campbell, Mircea Eliade e Carl Jung — a partir de um ponto biográfico mas analisando as "controvérsias" políticas deles. Estranhei Campbell nessa lista porque ele não é exatamente uma figura controversa, nunca falou de política, mas fiquei positivamente surpreso ao ver seu interesse em gente como H.L. Mencken. Os outros dois eu já tinha noção por causa das acusações de antissemitismo que eles sofreram e até comentei no último Doki-Doki sobre o caso do Eliade. Mas, é claro, nenhuma acusação muito bem fundada.
- The Betrayal of the American Right (Murray Rothbard):
O legal desse livro é que, ao contrário de basicamente tudo que o Rothbard escreveu, não tem tom acadêmico quase nenhum. Apesar de falar extensivamente da mudança do discurso político da direita, indo da "Antiga Direita" para os neoconservadores pró-guerra que marcaram o século XX, o livro é quase autobiográfico, e quem conhece um pouco da história do Rothbard pode imaginar que sobra para todo mundo. Rothbard acreditava no uso de qualquer meio para cooptar mais inimigos do Estado, esquerda ou direita, tanto que fez parte tanto da New Left quanto do National Review. No fim da vida, ainda ajudou Pat Buchanan a colocar os fundamentos para o surgimento da Nova Direita americana, como mencionei comentando The New Right no último episódio. Vale muito a pena nem que apenas para conhecer figuras da Antiga Direita;
- A Quarta Teoria Política* (Alexandr Dugin):
Esse livro é ruim e não acho que consegui expressar no episódio quantos problemas eu tive com ele. Dugin é claramente inteligente, mas é de uma inteligência acadêmica meio desconexa do mundo real. Ele postula três ou quatro coisas e constrói uma narrativa baseada nelas, que estaria certa caso esses postulados estivessem certos. Na realidade, o mundo é muito mais complexo e a história é muito diferente do que ele quer pintar. A análise do liberalismo dele é péssima, e o fato dele sequer esconder que é um propagandista provavelmente explica isso — ele provavelmente conhece liberais, mas não vai retratá-los de maneira fiel. A própria definição de "liberalismo" que ele usa é no mínimo questionável. Não tem apenas lixo no livro, mas o livro é predominantemente lixo;
- How to Talk Dirty and Influence People (Lenny Bruce):
Lenny sempre foi uma figura que me interessou muito. Assisti o filme do Dustin Hoffman anos atrás, talvez devesse rever, inclusive, e gostei muito. No terceiro episódio de Seinfeld, o Jerry comenta que estava lendo a biografia dele, então eu tinha noção de que esse livro existia, e... finalmente peguei para ler, coisa de dez anos depois de saber de sua existência. É um livro muito "uneven". A história da vida dele foi muito interessante, em particular a experiência dele fingindo ser um pastor e lendo a Bíblia apenas para perceber que era basicamente um terapeuta com clientes dispostas a pagar horrores para ter reforço positivo, mas a segunda metade do livro é quase totalmente composta por transcrições de sessões judiciais com comentários dele por cima. É um livro muito engraçado e bem judeu às vezes. Bom, mas poderia ser melhor;
- Esaú e Jacó (Machado de Assis):
É um livro sobre nada. Não estou exagerando. Não é muita coisa que acontece em Esaú e Jacó, mas a premissa segue o título do livro: temos dois gêmeos absolutamente idênticos, mas que não poderiam ser mais diferentes. Em tudo divergem, exceto na mulher que amam. Eu gostei muito de ler esse livro pelas descrições do Brasil de antigamente, tão distante do atual mas ainda assim tendo algumas coisas que até hoje nos perseguem. Foi curioso ver como o sincretismo religioso já era algo brasileiro mesmo no século XIX, e achei particularmente interessante ver como os dois irmãos, revolucionário e conservador, eram próximos até politicamente. Como o Michael Malice diria, "conservatism is just progressivism driving the speed limit", e acho que Pedro, o irmão conservador e monarquista, prova isso ao terminar o livro como um "republicano moderado";
- Bad Therapy - Why the Kids Aren't Growing Up (Abigail Shrier):
Livro fantástico que em muito iluminou minha percepção de um fenômeno da minha geração. Zoomers tornaram doença mental uma espécie de credencial de validação, e em muito isso foi culpa... dos pais e dos profissionais. Shrier começa falando de iatrogênese, que é a capacidade de profissionais da saúde acabarem piorando seus pacientes, e descreve como existe uma indústria em torno de saúde mental (que outra doença tem um pico na quantidade de casos depois da cura, terapia, ser descoberta?). Não é que zoomers tenham vida particularmente mais difícil, mas a tentativa de protegê-los dos traumas da geração passada acabou criando um monstro ainda maior. Agora coisas normais são consideradas doenças e tratadas com a mesma seriedade que se trataria uma doença crônica. Muita perversão por parte de professores e psicólogos é descrita nesse livro, mas acho que o apelo humanista é o que mais me pegou:
Many people love their spouses because of their quirks. I've never heard of anyone loving another for her diagnosis.
* Não encontrei na Amazon. Eu li esse livro em inglês porque a tradução em português era muito questionável. A em inglês também tinha problemas (mesmo sem saber russo, eu garanto), mas acredito que eram menores pelo mero fato de não ter sido feita por um brasileiro. O Michael Millerman, tradutor pro inglês, é uma figura em que confio e não duvido da honestidade, apesar de ter seus problemas — ser um acadêmico de acadêmicos. O que me fez ver que as pessoas atraídas por Dugin frequentemente se interessam mais em abstrações do que na realidade foi principalmente o fato de sequer alguém de cuja honestidade não duvido traduzir errado o nome de um economista mainstream e conhecido — George Stigler foi traduzido como J. Stigler. Claramente Millerman só olhou o texto de Dugin e traduziu de maneira análoga, sem saber exatamente quem era a pessoa que estava sendo citada. Obviamente brasileiros fizeram o mesmo erro na versão em português.
Não estou mais colocando links da Amazon porque... não ganho nada com isso, então mudei para o Goodreads. Além disso, não tem A Quarta Teoria Política nem na brasileira nem na gringa, devem ter banido o Dugin por causa da guerra na Ucrânia.
De qualquer forma, é isto. Não sei ainda quais vão ser os livros que vou comentar na próxima edição, mas já li dois livros esse mês — no meu Goodreads tem o que estou lendo.
Até a próxima, amigos.
sex, 31 mai 2024 10:13:58 -0300
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Inauguração do clubinho! Seremos amigos e nada de ruim vai acontecer! Temos garotinhas de anime e músicas fofinhas para todos.
A maioria dos livros que li esse ano foram de alguma forma relacionados a política, o que é meio triste por um lado, mas não lembro de ter lido nenhum livro realmente ruim. Não deu para discutir todos no episódio, mas foquei nos que davam pra falar mais coisa.
Vários dos lidos eram críticas razoáveis a democracia, eu estou tentando mostrar que ser antidemocrático não quer dizer que você é um fascista esquisitão Nova Resistência, e acho que existem vários ângulos para criticar algo que, no fundo, é só um sistema político e é cheio de problemas. Desmistificar a democracia é absolutamente necessário.
Mas teve muita coisa de vários temas diferentes. Sem mais delongas, os livros discutidos no primeiro episódio foram estes. Ao fim desse post vou deixar o episódio:
- Based on a True Story (Norm Macdonald):
Toda vez que falo desse livro para as pessoas, descrevo como realismo russo para quem tem preguiça de ler realismo russo, e não estou fazendo exagero. É um livro curto e que trata de questões profundamente existenciais. Praticamente uma introdução a Crime e Castigo;
- Cântico* (Ayn Rand):
Esse livro é bem curto, lembra um pouco A Revolução dos Bichos em ritmo de narrativa, e é uma distopia do futuro em que individualidade não existe — o conceito de "eu" não existe. Talvez o formato ideal seja em quadrinhos;
- O Manifesto Romântico* (Ayn Rand):
Rand fala sobre estética nesse livro, se descreve como romântico-realista, e argumenta que uma obra de arte é uma recriação da realidade de acordo com os valores. Eu gosto de boa parte do que ela fala, mas o livro é meio assimétrico. Ainda assim, algumas observações que ela faz me parecem tão claras quanto a água e absolutamente verdadeiras;
- I'm With the Band (Pamela des Barres):
Esse livro é sobre groupies. Apesar dos temas tratados aqui não serem nem um pouco infantis, é escrito de uma maneira meio irritantemente adolescente, mas... é um livro muito interessante. É cheio de "apesares": apesar de ser um livro de histórias muito degradantes, eu saí com uma opinião mais positiva sobre a cultura groupie do que quando entrei, apesar de ter várias tragédias, não acho que é uma história fundamentalmente negativa, apesar de a autora ser uma das mais "limpas" do meio, ainda é um livro sujo. Existe algo a se admirar em groupies tradicionais, completamente diferentes das gostosas-de-Instagram que não se expõem a nada;
- Bengal Nights (Mircea Eliade):
Primeiro romance do Mircea Eliade que eu li, e esperava algo completamente diferente especialmente saindo dos livros técnicos de história da religião. É baseado em uma história real que aconteceu com ele não muitos anos antes do lançamento do livro (1933): ele se apaixonou por uma indiana de uma família ortodoxa tradicional que não permitiria nunca o relacionamento dos dois. Não deu certo. Eliade sendo jovem...
- Uma Outra Juventude (Mircea Eliade):
Esse livro foi mais parecido com o que eu esperava do Eliade, e foi escrito quando ele era bem mais velho. A história é surreal, tem referências a alquimia, religiões obscuras, conhecimento proibido e uma camada de realidade abaixo de todo o comportamento humano. Talvez valha a pena levar um relâmpago na cabeça;
- The New Right (Michael Malice):
Li esse livro quando coincidentemente estava intrigado com nuances dentro de discurso político, e eu não podia ter escolhido algo melhor para esse tema. Malice tem experiência na vida real com essas pessoas, vivência nos meios de internet e bagagem filosófica para explorar ideias marginais conforme nos guia Inferno abaixo, como Virgílio;
- The White Pill (Michael Malice):
Esse livro é extremamente pesado, mas no fundo é sobre esperança. Conta a história da ascensão e queda da União Soviética, dá detalhes excruciantes de torturas e da falta de humanidade que foram trazidos por ideologia, mas principalmente traz como esses monstros foram derrotados. A ideia era mostrar que não é ingenuidade acreditar na vitória do bem sobre o mal, e o livro termina em uma nota triunfante;
- The Machiavellians (James Burnham):
Leitura essencial para qualquer pessoa que goste de teoria política, porque ele fala do que funciona, independentemente de ideologia. Como pessoas conseguem tomar o poder? Burnham nesse livro não tem interesse em defender nenhuma ideologia, é completamente amoral, e disseca dois tipos de visão: política como desejo e política como realidade. Os autores maquiavélicos são todos da escola italiana de elitismo, e todos antidemocráticos. Suas ideias podem ser aplicadas por pessoas de qualquer ideologia;
- O Mito do Eleitor Racional* (Bryan Caplan):
Talvez tenha sido o que mais gostei de ler dentre os que tratam democracia. Caplan não tem uma opinião muito positiva do eleitor médio, que quer opinar mais do que realmente se informar e estudar — o que faz total sentido, e Caplan admite. Mas ele mostra por que isso acontece e por que a democracia intrinsecamente sempre vai dar resultados subótimos, para dizer o mínimo. Curiosamente, ele partilha visão de alguns dos autores mencionados por Burnham, que não é citado no livro;
- The Dark Enlightenment (Nick Land):
Livro curto e assimétrico em qualidade, literalmente. Começa excelente e termina desinteressante. Land se tornou persona non grata na academia depois desse livro, que explica as origens, justifica e defende o que ele chamou de iluminismo das trevas, que é uma resposta à fé iluminista em progresso. É mais um livro fundamentalmente antidemocrático;
- A Mente Parasita* (Gad Saad):
Saad é um professor universitário, então já podemos garantir que vão existir problemas. Enquanto um ataque a ideologias parasíticas (feminismo, pós-modernismo e outras), é muito bom e extremamente razoável. O problema é que ele segue tendo fé nas instituições apesar de tudo, ele toca em questões que são problemas fundamentais da democracia, mas não ousa questioná-la;
- A Mente Moralista* (Jonathan Haidt):
Sobre psicologia aplicada à política, é outro livro extremamente assimétrico, com o começo sendo um dos mais interessantes e melhores que já li sobre psicologia moral e termina sendo uma análise extremamente básica de política. Vale a pena ser lido em paralelo com o do Bryan Caplan, que corrige todos os erros que esse tem na terceira (de três) parte(s);
- A Estrutura das Revoluções Científicas* (Thomas Kuhn):
Livro muito interessante que fala de como a visão boomer de ciência evoluindo através de acréscimos infinitesimais é absolutamente falsa. Meio verborrágico e de leitura um pouco densa, mas vale a pena. O que mais incomoda é a fé no bom senso da comunidade científica, que seria a responsável por definir o que seriam os paradigmas científicos válidos;
- Against Method (Paul Feyerabend): ou Contra o Método, se acharem em algum sebo
O melhor livro de filosofia da ciência que já li, ele questiona, como o título diz, qualquer método científico de regras rígidas. Ele usa evidências histórias e provas lógicas para mostrar que o método científico não é científico e que, se dependêssemos das comunidades científicas como Kuhn gostaria, não existiriam avanços científicos nunca. O herói do livro é Galileu Galilei;
- Studies on the Abuse and Decline of Reason (Friedrich Hayek):
Trata o problema de método científico aplicado às ciências sociais e morais. Vale a pena para brasileiros interessados no assunto porque na terceira parte ele traça as origens do pensamento cientificista e mecanicista para o socialismo francês e o positivismo, que teve influência forte no Brasil (vejam nossa bandeira). As duas primeiras partes são mais técnicas e a quarta e última é sobre Hegel e Comte.
* Eu li esses livros em inglês, não sei comentar as traduções linkadas em específico.
Eu não fazia ideia de que livros eram tão caros.
Ainda não sei quais serão os livros a serem lidos em 2024 nem quando será o próximo Doki Doki!
sex, 31 mai 2024 09:50:12 -0300
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Boa tarde, amigos! Tem um bom tempo que não posto nada no blog, e realmente não sei bem o que postar por aqui esses tempos, mas vamos lá.
Eu gravei no fim do mês passado um Doki Doki novo, e... não ficou bom. Eu quis regravar, mas não deu certo também então decidi que vou postar em breve a primeira versão, mesmo. Não foi agradável gravar da maneira que fiz no primeiro episódio, só falando dos livros que li ao longo do ano que me marcaram mais, porque... não foram tantos livros que me marcaram.
Como foi leitura de um trimestre apenas, faz sentido. Mas tenho certeza que a experiência de ouvir o episódio vai ser ruim e desagradável. Vou tentar colocar timestamps quando sair, caso alguém queira ouvir especificamente os comentários de um único livro. Não sei nem se vou postar no Instagram porque não tive muito orgulho desse episódio.
Definitivamente vou me planejar melhor para o próximo, e já tenho ideia de como fazer — convenhamos, já deu quase um mês desde esse fracasso, eu já tive tempo para pensar nisso.
Enfim, como é um formato novo não vou ficar me martirizando, mas são esses os avisos.
Recentemente me disseram que 25 livros em um ano é muita coisa, mas é mesmo? Talvez isso também dificulte as coisas um pouco. Enfim.
É isto, agradeço a paciência. Rezem por mim, tive doenças nos últimos tempos, incluindo mais uma otite. Deus abençoe.
ter, 21 mai 2024 11:57:48 -0300