Doki-Doki 11 - O Incel Primordial Nasceu da Tecnologia
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M-mais um Doki-Doki? Incrível!
Tecnicamente, esse era o Doki-Doki que eu planejava de verdade. O outro só aconteceu porque estava sendo adiado há coisa de um ano, literalmente — a Mariany é uma pessoa muito requisitada.
Reli Frankenstein mais cedo esse ano e pensei "uau! Ele é literalmente eu!" Mas, além disso, apesar de ser um livro com muitos defeitos, trata de temas que têm potencial para serem interessantes. Um deles, mais óbvio, é a condição do monstro. Acredito que existem vários monstros de Frankenstein andando no meio de nós, sendo excluídos e chamados de "incel". Isso abre portas para discussão sobre ressentimento, a primeira do episódio.
Qual a função da beleza? O que ela realmente sinaliza? Ela tem importância? Sim, ela tem. Mas não é o objetivo final, ou terminamos com Dorian Gray e bioleninismo.
A segunda discussão, e talvez a mais interessante, é sobre a arrogância tecnológica. Victor Frankenstein acreditava poder brincar de Deus e criar vidas do zero — não funcionou. A empolgação e o entusiasmo com a ciência fizeram-no esquecer que é humano, e não divino. Aí que entra o segundo livro discutido: Kierkegaard and the Question Concerning Technology.
Somos kierkegaardianos nesse podcast, então apenas aceite. Além disso, no episódio 7 do Doki-Doki, discuti brevemente um livro que é relacionado com esse assunto, ainda que eu tenha focado em outros aspectos. Duas Eras, o review de Kierkegaard para a obra de Thomasine Gyllembourg, é um de seus livros mais interessantes e mais atuais, e trata de como a tecnologia acelera o processo de nivelamento.
Lá no post sobre o episódio 7, eu disse que
Não é difícil encontrar pessoas completamente neuróticas com redes sociais, com como serão entendidas e como será a percepção dos outros com aquilo que postam, falam, suas opiniões. O processo de pensar excessivamente em suas ações, avaliar e reavaliar elas racionalmente, é chamado de reflexividade.
Mas aqui eu vou muito mais fundo nessa questão. A inquietude e a ansiedade que são geradas por causa desse constante movimento tecnológico e da incapacidade de ficar sozinho em silêncio em um quarto, para parafrasear Blaise Pascal. Como a tecnologia nos faz ficar paralisados e não tomar ações quando temos sentimentos que nos empurram para isso? E o que isso faz com nossa psicologia?
E a forma moderna é mais antiga que a internet. David Foster Wallace em E Unibus Pluram discute o efeito da televisão nas pessoas e, em particular, em escritores de ficção. Todas essas tecnologias narrativas criam uma falsa realidade e tentam vender como se fosse a coisa real — geralmente de forma convincente.
Naturalmente, estendi um pouco: se a televisão, que é a televisão, consegue ter esse efeito, e quando estamos sempre acompanhados de um celular, com suas vinhetas de poucos segundos e imagens com apenas o suco da vida de outras pessoas? Será que realmente somos tão cientes disso?
David Foster Wallace acredita que, ainda que sejamos cientes disso, somos tão contaminados por ironia que entramos voluntariamente em desespero. Odiamos consumir mídia, mas não conseguimos ficar sem.
Razoável, não?
Agradeço os comentários positivos que recebo. É sempre um prazer gravar episódios do Doki-Doki! :)
seg, 29 jun 2026 17:13:42 -0300
Doki-Doki 10 - Foi Horrível!
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Esse é o primeiro Doki-Doki com uma segunda pessoa, e só poderia ser a minha amiga Mariany. Se algum dia fosse ter participação de alguém nessa série do KrameriCast, seria ela.
Ambos os livros talvez sejam os que mais me impactaram em língua portuguesa e inglesa. Gustavo Corção é uma figura um pouco esquecida no cânone literário brasileiro mas, graças ao bom amigo Bonholmer, comprei a belíssima obra Lições de Abismo em 2021 e devorei a história de um dos personagens literários botafoguenses.
Based on a True Story, por outro lado, foi uma leitura que demorou um pouco para eu pegar. Depois de um dos patronos desse programa morrer, também em 2021, passei a ir muito mais a fundo no conteúdo dessa belíssima alma que nos deixou. Sugiro fortemente o audiobook, lido pelo autor.
Talvez mais do que o próprio livro.
As duas obras em algum nível falam sobre decadência diante da morte e procurar respostas quando você se encontra diante de um horizonte cinzento que não te responde.
Um dos meus episódios favoritos. Sei que o áudio da Mariany não está dos melhores mas peço que relevem, o episódio é excelente.
Leiam esses dois livros, pelo AMOR de Deus.
ter, 23 jun 2026 22:17:15 -0300
Doki-Doki 9 - Metendo Porrada no Parasítico Zumbi Moderno
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Primeiro episódio de 2026 do clubinho de literatura. Perdão pela demora, é um episódio um pouco diferente!
Dessa vez eu não estou indo atrás de obras tão absurdamente intimidantes quanto Either/Or ou os poemas de T.S. Eliot, mas ainda vou atrás de dois grandes clássicos. Todos já assistiram ao filme Clube da Luta mas, dado o sucesso da adaptação cinematográfica, acabam esquecendo que ela veio de uma obra literária bem interessante.
Eu esperava que Clube da Luta fosse um livro bem mais violento, para ser sincero. Se o filme já era relativamente explícito em sua violência, imaginava que o livro fosse ainda pior, mas não. O que encontrei foi, sim, violência, mas muito mais sutil do que na adaptação. Tenho que dizer que minha cena favorita do filme não veio do livro, o que foi uma pequena decepção, mas tudo bem.
O livro tem um pano de fundo não exatamente niilista, mas extremamente cínico quanto a qualquer possibilidade de redenção do mundo moderno, e usa a violência como única ferramenta capaz de trazer alguma mudança. Várias ideias interessantes são sugeridas no livro, mas poucas são exatamente desenvolvidas: dinâmica de gêneros, função da violência na sociedade, falta de paternidade e, principalmente, busca por significado na vida moderna.
O autor disse que queria fazer uma versão atualizada de O Grande Gatsby, outro livro comentado no episódio. Pode parecer estranho, já que os enredos e as histórias não têm muito a ver um com o outro, mas tentei analisar partindo desse aspecto, e não foi difícil ver que existem, sim, paralelos.
Em ambos os livros há castas sociais das quais você fundamentalmente não pode sair ainda que possa performar como tal. Em Clube da Luta você nunca se tornará o bilionário de sucesso da máquina corporativa, e O Grande Gatsby mostra que, ainda que você tenha o dinheiro, se não tiver o status e o background certos, não vai ser visto como um igual ainda que seja mais bem-sucedido. Enquanto na versão dos anos 20 da história o protagonista tenta desesperadamente fazer parte dessa casta superior, na versão atualizada o protagonista desiste por completo disso e começa a atacar o próprio sistema de divisão de castas sociais.
Os dois livros são fundamentalmente movidos por algum sentimento negativo: desespero ou ressentimento diante de uma vida completamente artificial. Gatsby tenta simular um passado e uma história que não têm para fazer parte de uma casta social elevada, e o narrador de Clube da Luta se desespera com a artificialidade da sociedade na qual se encontra, criando então seu duplo Tyler Durden.
O terceiro livro comenta o fenômeno das duas sociedades dos dois livros. Zombies in Western Culture, do psicólogo John Vervaeke, da meaningwave canadense, é um estudo sobre a figura do zumbi e como ele capturou o inconsciente dos nossos tempos. Ele estuda o que há de comum em todas as representações, desde as mais antigas das primeiras décadas do século XX, e explica o porquê de Tyler Durden se revoltar.
Acho particularmente interessante a discussão sobre bullshit.
Em última instância, me parece que tanto Jay Gatsby quanto Tyler Durden estão presos às mesmas coisas, mas de maneiras diferentes e tendo respostas diferentes. Será que não aprenderam que toda casta de coisa sairá bem?
Sempre um prazer gravar. Espero vocês no próximo Doki-Doki!
seg, 18 mai 2026 22:08:06 -0300
A vida de Emerald
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Esse episódio foi um daqueles que falo de pedaços de coisas da minha vida.
Eu falei brevemente de uns livros que li, nenhum deep dive, falei de preocupações da minha cabeça, ainda que de maneira vaga (é do tipo IYKYK que pode parecer indireta), e falei de coisas que fiz esse mês.
Mais uma vez fui para Santa Catarina e mais uma vez foi bom.
Esse episódio é para quem tem mais curiosidade sobre mim especificamente, não foi tão orientado a conteúdos, eu acho, ainda que tenha comentado vários livros.
Deus abençoe todos vocês.
sáb, 02 mai 2026 07:55:36 -0300